Uma economia cíclica no Brasil?

A economia cíclica apresenta oportunidades de realizar reduções importantes na produção de resíduos sólidos no país. Ao longo do ano passado, eu realizei uma série de pesquisas sobre as oportunidades para a implantação de uma economia cíclica no Brasil. A pesquisa englobou análises das oportunidades criadas e dos enquadramentos legais, econômicas e sociais existentes no Brasil.

Os resultados apresentam quatro oportunidades para uma economia cíclica: a Política Nacional de Resíduos Sólidos, incentivos financeiras, concentração de indústria e logística na região Sudeste do Brasil, e empreendedorismo.

A economia cíclica apresenta soluções estratégicas para umas das questões mais complexas enfrentando o mundo hoje em dia: esgotamento de recursos, produção de lixo na cadeia de valor, aumentos nos preços de recursos e degradação de biodiversidade e ecossistemas. Ou seja: as forças destrutivas do sistema econômica do XXI século.

A visibilidade do conceito da economia cíclica esta aumentando: em 2008, legislação chinesa adotou conceitos da economia cíclica como parte da estratégia de desenvolvimento econômico nacional. Em total, 30 parques eco-industriais foram aprovados para construção, facilitando o intercambio de resíduos sólidos entre fabricas, com aproveitamento de resíduos para matéria prima e extração de energia. De modo similar, a União Europeia anunciou em 2012 um compromisso de se tornar a uma economia cíclica, no programa «Uma Europa eficiente em recursos».

Aumentos nos preços de energia e recursos (veja gráfico abaixo), demonstram claramente a necessidade urgente de mudar para uma economia não-destrutiva, alternativa para o modelo atual, que consome recursos finitos de maneira infinita.

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Baseado no conceito de ecologia industrial, a economia cíclica pretende analisar a indústria de forma integrada, tendo em conta as interaçãos e relações entre a indústria e ecossistemas. A economia cíclica considera tanto a produção como o consumo sustentável no âmbito empresarial e da sociedade. Assim, ela promove desenvolvimento sustentável na medida em que procura reduzir a utilização de materiais primas e energia no ciclo de vida de produtos.

A economia cíclica é uma oportunidade para crescimento econômico, possibilitando o desenvolvimento de uma economia restaurativa que protege o meio ambiente e recursos naturais. Isto pode ser conseguido por meio de uma ampla gama de estratégias, incluindo os fluxos de circuito fechado de materiais, fabricando produtos em ramo de Design para Refabricação e Design para Desmontagem, aplicando a certificação Cradle to Cradle, e montando logística reversa para evitar que os resíduos sejam depositados em aterros e, como alternativa, utilizando os resíduos sólidos como matéria prima em novas cadeias de produção.

Imaginando a economia cíclica no Brasil: 4 possibilidades

1. Politica Nacional de Resíduos Sólidos

Depois de 20 anos, o governo brasileiro introduziu Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS). A política tem foco em seis tipos de resíduos perigosos, tendo como objetivo a redução de produção de resíduos e a melhoria de sustentabilidade na gestão de resíduos sólidos urbanos.
As características fundamentais da política a torna uma plataforma viável para a construção de uma economia circular:

– introdução da hierarquia dos resíduos, que determina as prioridades de pós-consumo, gestão de resíduos, salientando a necessidade de prevenção e redução, o que tem implicações sobre design de produto

– assegurando o princípio do poluidor-pagador, os produtores são obrigados a pagar para a gestão de resíduos sólidos

– dando prioridade ao desenvolvimento da logística reversa e cadeias de abastecimento, a fim de desviar os resíduos dos aterros sanitários e lixões e retornar em fim de vida de produtos para o produtor

Com respeito a esta última questão, a logística reversa facilita sobre tudo o desenvolvimento de sistemas de produção industriais em ciclos fechados. A PNRS exige que os produtores em um determinado sector trabalhem em parceria para construir a logística reversa. Isso promove uma maior colaboração, o compartilhamento de informação e comunicação entre os jogadores-chave. Portanto, existem grandes barreiras institucionais, físicas e econômicos envolvidos no desenvolvimento de logística reversa. Por exemplo, enquanto o Brasil tem a quarta maior rede de estradas em todo o mundo, apenas 13% do que é pavimentada, que define os desafios para o desenvolvimento de rodoviário de cargas para a logística reversa (CIA World Factbook).

No entanto, no desenvolvimento da logística reversa, as indústrias brasileiras poderiam preparar se para estratégias cíclicas de design, fabricação e reuso de resíduos sólidos como matéria prima.

2. Fundos económicos

Várias fontes de financiamento existem para incentivar a produção sustentável​​:

– Fundo Nacional para Mudanças Climáticas – apoie projetos que desenvolvam a logística reversa
– FINEP Brasil Sustentável investe em projetos que promovem a produção sustentável e inovação em tecnologia
– BNDES Funtec investe em inovação sustentável em tecnologia

Os três fundos citados fazem parte de programas nacionais que fornecem investimento para dar apoio a negócios sustentáveis, tecnologia e serviços em superar as barreiras de mercado. Brasil Sustentável, por exemplo, tem acesso a US$987 milhões em financiamento, que se destina ao desenvolvimento de produtos sustentáveis​​, tecnologias e inovação. 75% sera destinado a projetos que incentivam inovação nas empresas e 25% para subsídios no desenvolvimento de novas tecnologias em áreas prioritárias que têm relevância para a economia circular.

Além disso, o governo brasileiro lançou recentemente o Plano de Ação para Produção e Consumo Sustentáveis. O Plano define objectivos e metas de sustentabilidade para seis setores chaves que visam à transição para uma sociedade brasileira mais sustentável. Este plano constitui o quadro regulamentar necessário para crescimento no mercado de bens e serviços sustentáveis.

Uma das maiores barreiras é à demanda do mercado por produtos sustentáveis​​: atualmente apenas 5% dos consumidores brasileiros se consideram “consumidores conscientes” (Instituto Akatu). Isso impede a inovação e os esforços de sustentabilidade, como o retorno do investimento para os produtos sustentáveis ​​continua sendo baixa. Outros desafios incluem o “Custo Brasil”, e processos burocráticos que agem como barreiras à entrada no mercado.

3. Região Sudeste

A região Sudeste oferece fatores favoráveis ​​para uma economia cíclica, sendo que:
– a maioria da atividade industrial no Brasil está concentrada nas regiões da cidade de São Paulo e Rio de Janeiro, que entre eles contribuem em média 25% do PIB do Brasil anualmente

– a maioria dos resíduos são produzidos no Sudeste, impulsionada pelas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro

– parques eco-industriais estão florescendo no estado do Rio de Janeiro, originalmente criado por uma iniciativa do governo e agora liderado pelo sector privado

– a melhor infra-estrutura rodoviária encontra-se no Sudeste, facilitando o desenvolvimento da logística reversa a um custo mas favorável
– a maior parte do financiamento do BNDES mencionado no ponto 2 acima foi para empresas sediadas na região Sudeste do Brasil

4. Empreendedorismo

Finalmente, empreendedores têm uma oportunidade de fazer crescer nichos de mercado na concepção e produção de produtos sustentáveis​​, dada a sua capacidade de inovar em produtos, exemplificado pelas empresas TerraCycle, NovoCiclo e EPEA Brasil. Esses atores tiram benefícios do fato de não estarem “trancados” em processos de fabricação de alto produção de carbono. A Lei Nacional de Resíduos Sólidos oferece a oportunidade de gerar novas oportunidades no mercado, com apoio de financiamento oferecido pela FINEP e BNDES para empresários e a PME, o que reduz as barreiras à entrada.

O governo brasileiro não tem desenvolvido o melhor ambiente operacional para start-ups e empresários, mas a boa notícia é que a mudança é iminente: no mês passado, o governo anunciou que investimento de R $ 200.000 para cada um dos 100 start-ups selecionados por demonstrarem o maior potencial de crescimento e oportunidades para expansão.

Tomados em conjunto, os quatros pontos citados representam uma rede de oportunidades para um novo sistema econômico, modelos de negócios e de consumo que ajudará o Brasil a se desenvolver em uma sociedade sustentável e resiliente.

Fontes complementares

Fundo Nacional sobre Mudança do Clima

FINEP Brasil Sustentavel

BNDES Fundo Tecnológico (BNDES Funtec)

Plano de Ação para Produção e Consumo Sustentáveis (PPCS)

Competitiveness and growth in Brazilian cities: local policies and actions for innovation

bRIC with a small b Part II: 4 opportunities for a circular economy in Brazil

In this blog post I argue that there are key intervention points within the Brazilian economic, social and legal structures that open up opportunities for a circular economy. It is intended as a follow-up from my last blog post, which discussed key trends that point to the need for Brazil to embrace a more sustainable economic model.

Why the circular economy: an opportunity for restoration

I am currently reading Paul Hawken’s The Ecology of Commerce, which outlines the destructive effects of our global linear economy. A fact I read this morning during my commute put our urgent situation into perspective:

Our human economy utilizes, consumes, converts, […] and burns annually more than 40% of the total net primary production* of the planet. […] Our species, out of 5-30 million species, is directly and indirectly claiming 40% of the earth’s production for itself. If, as predicted, population grows to 9 billion, we will usurp 60% of the primary production of the planet. […] We will quadruple our impact, a physical impossibility.

(*Net primary primary production of the planet = defined as the sum of all photosynthetic production minus the energy required to maintain and support those plants.)

The economic activity described above is currently being driven largely by Western consumption and demand for goods. As Brazil, and other emerging and developing countries, move towards high levels of income and consumption, this will compound the destructive effect illustrated by Paul Hawken.

With the EU and China taking positive steps towards such a transition, the circular economy has been gaining attention from business, government and society.

The circular economy is an opportunity for growth, enabling the development of a restorative economy that protects the environment and natural resources. This can be achieved through a broad range of strategies, including closed-loop material flows, replacing end-of-life waste disposal with repair, design theories such as Design for Remanufacture and Design for Disassembly, and Cradle-to-Cradle production and Industrial Ecology (see image below).

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How industrial ecology works: a schematic diagram

These strategies lie in stark opposition to those practiced by our ‘take-make-waste’ economic and industrial systems. This structure depends on linear modes of production, namely: extracting resources, manufacturing goods, transportation, sale, use, disposal. Whilst we have enjoyed a boom in trade, economic prosperity (not for all) and mass production since the Industrial Revolution, this has been at the expense of ecosystems, cheap labour, abundant resources and energy. As the price for energy and resources rise (see graph below), there is an urgent need for a non-destructive, restorative economic as an alternative to our ‘take-make-waste’ model, and current trends in Brazil give rise to the opportunity for a more circular economy.

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A warning sign? Price hikes for key commodities in the past 12 years have offset a cumulative decline in resource prices over 100 years.

Key intervention points Brazil can leverage in order to restructure for a more circular economy 

1. National Policy on Solid Waste 

After much dithering (approximately 20 years) the Brazilian government introduced the country’s first national law on solid waste, the Política Nacional de Resíduos Sólidos. The policy focuses on six hazardous waste types, including e-waste and aims to decrease the production of waste and improve the sustainability of municipal solid waste management. 

Key features of the policy render it a viable platform from which to build a circular economy:

  • the policy introduces the waste hierarchy that determines priorities for post-consumer waste management, stressing the need for prevention and reduction, which has implications on product design
  • polluter pays principle is upheld, as producers are obliged to pay for waste management
  • reverse logistics and supply chains are to be developed, in order to divert waste from landfill and dumps and return end-of-life products to the producer

It is this last point concerning reverse logistics, in particular, that is of importance. Reverse logistics help transition an economy from a ‘take-make-waste’ model to one which operates based on closed-loop models of production, where waste is reused as an input. This Brazilian law requires producers within a given industry to work together to build reverse supply chains, which fosters greater collaboration, information sharing and communication between key players. Of course, there are large institutional, physical and economic barriers involved in developing reverse logistics. For example, whilst Brazil has the fourth largest road network in the world, only 13% of it is paved, which sets challenges for the development of road cargo for reverse logistics (CIA World Factbook).

Nevertheless, in developing reverse supply chains, Brazilian industries could be setting themselves up for circular modes of design, production and reuse.

2. Policies and financial mechanisms

Several funding sources and policies exist that incentivise the production of sustainable goods:

  • National Fund for Climate Change – Climate Fund Fundo Nacional sobre Mudança Climatica – Fundo Clima will soon support projects that develop reverse logistics
  • FINEP’s (Projects Financing Institution) Brasil Sustentável invests in projects that promote sustainable production and innovation in technology
  • BNDES (Brazilian National Bank for Sustainable Development) Funtec invests in sustainable innovation in technology
  • National Action Plan for Sustainable Production and Consumption Plano de Ação para Produção e Consumo Sustentáveis

The three funds above are national programmes that provide investment to help sustainable business, technology and services overcome market barriers. Brasil Sustentável, for example, has access to US$ 987 million in funding that is intended for the development of sustainable products, technologies and innovation. 75% will go towards projects that enhance company innovation and the remaining 25% will subsidise the development of new technologies in priority areas that hold relevance to the Circular Economy.

Furthermore, the Brazilian government recently launched the National Action Plan for Sustainable Production and Consumption, which I have written about here. In brief, the Plan sets out sustainability  objectives and targets for six key sectors (see table below) that are aimed at transitioning Brazil towards a more sustainable society. This Plan provides a necessary regulatory framework from which to grow the market for sustainable goods and services.

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Priority sustainable development areas for the Brazilian National Action Plan for Sustainable Production and Consumption

One of the biggest barriers concerns the market demand for sustainable goods: currently only 5% of Brazilian consumers consider themselves as ‘conscious consumers’ (Instituto Akatu). This stifles innovation and sustainability efforts, as the return of investment for sustainable products remains very low. Other challenges include high running costs in Brazil, known as custo Brazil, and bureaucratic processes that act as barriers to market entry.

3. São Paulo & Rio de Janeiro: a South East city-region opportunity 

Brazil is typically divided into five regions, which group together several states. The South Eastern region is made up of four states, including some of Brazil’s most competitive and tech-savvy cities: São Paulo, Rio de Janeiro, and Curitiba (The World Bank, 2010).

The South Eastern and Southern regions of Brazil provide the biggest enabling factors for a circular economy, given:

  • Most of Brazil’s industrial activity is concentrated in the city regions of São Paulo and Rio de Janeiro, which between them contribute on average 25% to Brazil’s GDP annually
  • The largest amount of waste is produced in the South East, most driven by São Paulo and Rio de Janeiro cities
  • Eco-Industrial Parks are flourishing in the state of Rio de Janeiro, originally set up by a government initiative and now private sector led
  • The best road infrastructure lies within the South East, facilitating the development of reverse logistics at lower cost
  • The majority of the BNDES funding mentioned in point 2 above went to companies based in this South Eastern region of Brazil

4. Entrepreneurs & SMEs in the driving seat

Finally, entrepreneurs and SMEs have a real opportunity to grow niche markets and lead the way in the design and production of sustainable goods, given their ability to innovate around products, as exemplified by TerraCycle, NovoCiclo and EPEA Brasil. These actors benefit from not being locked-in into resource and energy intensive production and processes. The National Law on Solid Waste offers the opportunity to generate new market opportunities, supported by sustainable finance offered by FINEP and BNDES that support entrepreneurs and SMEs, which lowers the barriers to entry.

Admittedly, the Brazilian government hasn’t developed the best operating environment for start-ups and entrepreneurs, but the good news is that change is imminent: last month the government announced it would invest R$200,000 for each of 100 selected start-ups that demonstrate the most potential for growth and opportunities for scaling up.

The verdict

There are certainly opportunities that can be leveraged to transition Brazil to a circular economy. The above four points lower the ‘barriers to entry’ for such a transition to occur. I have also attempted to (very) briefly outlined some of the key challenges involved in this process, one of which remains political will. With a track record of influential government leadership and the use legislative solutions, political will and backing is required for any economic transition to take place in Brazil (without it many initiatives fail to be successful). The above points remain context specific in isolation, however, when taken in aggregate, they represent a network of opportunities for a new economic system, business and consumption models that will help Brazil develop into a sustainable, resilient society.

Resources

National Fund for Climate ChangeFundo Nacional sobre Mudanca Climatica

FINEP’s Brasil Sustentável (Projects Financing Institution)

BNDES Funtec (Brazilian National Bank for Sustainable Development)

National Action Plan for Sustainable Production and Consumption Plano de Ação para Produção e Consumo Sustentáveis

Competitiveness and growth in Brazilian cities: local policies and action for innovation